domingo, 6 de dezembro de 2009

Como vinho numa adega


...e mais um adeus ele viu ser dito.
A solidez dessa palavra sempre o fez tentar tornar a despedida eterna, embora à contragosto às vezes.
Ele era, por assim dizer, como aqueles vilões dos velhos tempos: Tinha honra e seguia à risca a filosofia de "prego batido, assunto encerrado".
A porta de saída batendo era uma cena cada vez mais frequente em sua vida. Pessoas surgiam, faziam parte de momentos inesquecíveis, encenavam histórias maravilhosas até que, sem que menos se esperasse, a via de sentido único passava a ser mão dupla e qualquer um, inclusive ele mesmo, terminava dirijindo-se para outro lado e a distância se encarregava de apagar do alcance da vista alguém com quem até pouco tempo dividia, na simplicidade dos seus atos, a felicidade.
As pessoas comentavam, criticavam, faziam piadas, mas ninguém jamais soube o motivo de tantos corações partidos. Ele gostava de colecionar coisas que, na maioria das vezes, nem sabia que tinha e todo mundo dizia que amor era uma delas. Mas como seria capaz de guardar externamente um sentimento que já não possuía nem dentro de si mesmo? Recebia flores mas não conseguia entregá-las pois havia dado todas as sementes e terra fértil para alguém que colecionava jardins, todo amor que tinha estava deixado como vinho preso dentro de uma garrafa numa adega.
Durante toda a sua vida havia se perdido várias vezes. No caminho da escola, se perdeu ao falar demais, ao ficar calado, se perdeu no tempo e no espaço quando menos podia errar, mas o pior de tudo: havia se perdido de si mesmo. Quando criança aprendeu com sua mãe que a coisa mais sábia a fazer quando se está perdido é ficar parado em um lugar só até ser encontrado. Hoje ele continua no exato ponto em que sua vida parou quando teve que dizer adeus apesar de querer ficar mas sabe que qualquer pessoa vai se perder de tanto procurá-lo, embora nem saiba ao certo até que ponto vale à pena encontrar alguém que se distanciou de si mesmo.




[a quem espera pelo que nunca vai chegar...]

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

O que não pude falar

O valor de uma família vai além dos laços de sangue. Além da casualidade de pessoas afins nascerem com qualquer grau de parentesco.
O valor de uma família é algo indiscutível e absoluto. Está além das coisas banais, ultrapassando até mesmo os níveis absurdos de cumplicidade que se pode ter com os amigos mais chegados.
O valor de uma família não precisa obedecer a tolerância necessária para se manter as boas relações dentro de um convívio convenientemente regrado.
O valor de uma família se dá nos momentos de loucura, ao abraçar um amigo de surpresa só pra ver a cara de susto, nos momentos de raiva quando alguém toma para si os problemas dos outros e que, no final das contas, não levam a nada.
O valor de uma família está impresso num quadro de avisos onde todo mundo se abraça para caber na foto, e em muitas outras imagens que a lente da câmera não teve o prazer de captar mas que estarão pra sempre gravadas como lembranças de um tempo bom.
O valor de uma família está nas palavras mais difíceis e tôscas que um adulto que aproveitou a infância como ninguém pode falar, lembrando os tempos do ronconcon pra não demonstrar explicitamente que está muito à frente da nossa era.
A família perfeita é aquela que tem um cara super engraçado, com um dj imaginário em suas cordas vocais, que conta a piada do pinguim e do cara pidão e todo mundo se racha de rir.
Em toda família deveria existir um japa que todo mundo pudesse encaixar seu nome nas músicas bregas e cantar enquanto viaja sozinho no carro.
Todo mundo que é feliz deve ter um irmão mais velho que compra brigas intermináveis com o computador e reclama por ser refém de uma ferramenta que nunca conseguirá acompanhar o talento que tem, e um irmão mais novo capaz de colocar som na mala de uma Biz e comprar os bonecos mais pebas do mundo mesmo sabendo que eles formam um triângulo amoroso.
Na família que eu escolhi tem um cara acima de tudo humilde, que tem a barba mais irada e que pra mim sempre será exemplo de pessoa e profissional. Tem também a pessoa mais carregada que eu já vi, com um sorriso sincero e uma risada tão maluca quanto suas histórias.
No meu coração eu terei pra sempre algumas pessoas que carregam outras pessoinhas dentro de si e quero ter tbm uma criança gigante que só Deus sabe onde colocou seu juízo. Uma pessoa com quem rir e com quem chorar, que não enjoa de biquini cavadão, que morre no videogame e faz uma festa como se tivesse ganho a loteria, que acha que Snoopy = Pink Floyd mesmo querendo dizer Pink & Cérebro, alguém capaz de achar Belo bonito. Uma pessoa com um jeito único de fazer amizades e enorme talento p entrar em encrencas.
Nessa família falta o cara que, com lágrimas no olhos e o peito espremido, escreveu essas palavras por não ter conseguido falar ao se despedir.
Enfim, o valor da minha família está nas risadas, conselhos e lágrimas que se distribui gratuitamente para pessoas de coração bom, algumas que até nem vejo mais, mas que poderiam muito bem se chamar Madja ou Ródi... Está nos momentos que passaram mas não ficaram pra trás. Está nas idas ao peixe, à fava, Sport e Rock Bar, aos bodões da vida e até mesmo nas furadas que alguns deram. A felicidade iluminava uma sala cheia de malucos que, na falta de energia, jogavam Uno e desejavam que o apagão acontecesse todos os dias. Ela não estava só nos dias 25 qd visitávamos a Kátia Econômica Federal mas também nos momentos de pindaíba quando, com uma régua, alguém cutucava o cofrinho do Homem Aranha pra arrancar 1 real e comprar a cocada-ada. Esteve inclusive presente como coadjuvante num momento de dor insuportável quando todos me abraçaram e disseram: Seja forte.
A minha família tem as pessoas que eu quero, os que, por escolha própria, fui obrigado a me distanciar porém nunca esquecer. Minha família é da forma que sempre quis: complicada e perfeitinha, com suas igualdades e diferenças para mostrar que até mesmo no céu pode haver lágrimas.
A todos da minha família eu deixo meu respeito, minha reverência pelas pessoas que são, deixo um pedaço de mim e levo uma parte enorme de cada um. Deixo meu mais sincero sorriso, o abraço mais apertado e levo pra sempre o prazer de ter encontrado amigos e ter deixado irmãos.
[a todos que aprendi a amar e que por 2 anos souberam me manter feliz...]

domingo, 15 de novembro de 2009

Apague meu fogo com gasolina




Estavam todos errados.
O último encontro, frio como as noite de maio, colocou um ponto de exclamação no fim de palavras intermináveis.
O chumbo das palavras dele pesaram tanto que ela deve ter usado um guindaste pra conseguir entrar no quarto de cabeça erguida.
Tudo havia sido válido, ao menos para que servisse de lição. O encontro propositalmente ocasional, a esperança mais uma vez inútil de quem quer esperar resultados diferentes fazendo tudo do mesmo jeito, enfim, os mesmos erros de sempre para quem tenta acertar os ponteiros de um relógio que gira ao contrário.
Ela, como de costume, espirrava mentiras que cortavam como navalhas, enquanto ele pensava, já sem nenhum sinal de respeito, em como ela era capaz de mentir para alguém que sequer enganaria a si mesmo, e ainda se chocava com a falta de bom senso dela em não perceber que suas promessas vazias não o convenceriam, afinal, era expert no assunto pois quem mais no mundo teria se iludido tantas vezes por juras que saiam sempre da mesma boca?
Ela, já nem se machucava com tudo aquilo que ele falava. De tanto ouvir grosserias havia criado uma espécie de couraça que a impedia de se machucar. Uma proteção para amortecer as pancadas que escutava para que não atingissem o nível que faz qualquer pessoa desistir de outra.
O lugar onde antes existia amor, hoje está ocupado por outras coisas mais parecidas com indiferença, e, seja lá o que ambos tenham dentro do peito, não parece um coração. Houve álcool, houve beijos, houve dinheiro, mas faltou alguma coisa na mecânica desse encontro, embora os dois saibam exatamente para que cada um serve em relação ao outro.
Sentado na mesa ao lado, eu só posso concluir que o amor abre todos os caminhos, mas a falta dele só nos faz ver o chão da própria cela. Não sei em relação aos anjos mas é a esperança quem dá asas aos homens e esse casal por pouco não está rastejando.




[pra quem sente o gosto doce das últimas gotas de um vinho barato...]

sábado, 7 de novembro de 2009

Hoje o dia vai ser curto com as horas longas...

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Pobre menino rico


São 2:30 da manhã, minha festa acabou.
Depois de me enganar a noite toda a ficha cai seca e rasga o silêncio em minha mente: Estou só.
Entro em casa. Você me faz falta, a noite está absurdamente escura mas não o suficiente pra esconder essa certeza estampada no vazio do meu lado. Meu sorriso tão espontâneo durante toda a noite agora dá lugar a um pálido amarelo que incorporo involuntariamente a cada noite que encerro sem te ter.
Minha festa chega ao fim e me abandona sempre nessa rua sem saída, esperando uma carona de alguém que corre a 200 km/h na direção contrária. Ela insiste em terminar (quase) todos os dias no único lugar onde eu não te encontro: meu quarto.
Olhando para o teto, tendo o breu como véu, penso:
- O amor é uma corrida onde só existe um campeão. Caso houvesse 2º lugar você estaria pra sempre gravada na prata de uma medalha. Não ostentaria no pescoço por orgulho pois toda vez que penso em quem ganha nessa história lembro de quantas vezes perdi.
Minha noite se encerra e me leva consigo para o local onde o esquecimento sana (por ora) o mal de não te ter.
Que bons sonhos embalem meus pensamentos e anjos velem pelo sono de quem tem o que quer mas não o que precisa.


[a quem deixa todas as noites acabarem com o mesmo pensamento em mente]

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Carta de um tetéu

Pleno meio de noite e o telefone toca, o que há muito tempo não é mais normal aqui em casa. Uma voz doce me mata uma saudade que, de tão antiga, quase nos torna estranhos.
Recebi notícias sobre você meu velho, meu avô, mas como a pessoa que fala não é você mesmo, algo não está certo. Numa fração de segundos a voz doce se transforma em pimenta espremida numa ferida. Eu perco o fio da meada na história e começo a recordar um tempo em que tudo era diferente do que estava ouvindo naquele instante...
...você era bem mais novo (quase uns 20 anos), suas mãos não tremiam e sim me seguravam pra a gente jogar bola, sua voz não era fraca mas bastante alegre quando me chamava -"Ô Filipinhoooooo". Me lembro do quanto era dificil poder lhe visitar mas a saudade era tão grande que, mesmo no meio de tanta gente estranha, eu me sentia em casa te ouvindo contar que o tempo não passava sempre de forma divertida e com sorriso nos lábios.
Nunca pude te dizer o quanto te admiro, o quanto quero ser igual a você. Sempre sorrindo, nunca transparecendo problemas ou preocupações, sempre generoso e atencioso com todos (quer mereçam ou não), soube viver no inferno e não se transformar num diabo.
Hoje eu já não sou o mesmo que você carregou nos braços, não acordo cedinho de manhã e fico batendo nas portas chamando - "Tetéuuuuuuu", não jogo mais bola, não sou tão divertido, e, aos poucos a vida me transforma numa pessoa diferente de você.
Você tampouco é o mesmo. A idade caiu severa sobre seus ombros, porém eu acredito que ainda possua o mesmo olhar de menino, um coração que não bate mais tão forte mas que ainda consegue se encher de amor a cada manhã que nasce, seus braços não sustentariam mais aquele moleque que você levava pra tomar refrigerante no bar da frente escondido de mamãe mas tenho a certeza de que seriam capazes de me abraçar com tanta força que esqueceríamos a saudade e a distância, você está dormindo com ajuda de aparelhos mas sei que nos seus sonhos não existem remédios, médicos, cirurgias ou siglas imbecis como UTI e, caso não queira acordar desse sonho, saiba que seu neto aqui será capaz de entender que você preferiu se juntar a tanta gente boa que lhe aguarda do outro lado. Mande lembrança a todos e informe que não vejo a hora de estar junto de meus heróis de infância e que mesmo depois de adulto ainda ocupam um lugar enorme exercendo o papel de construir e cuidar da pessoa que eu sou.
Me despeço da voz meiga ao telefone, a saudade começa novamente e eu penso: 2009 tem sido amargo e Deus parece não corresponder meu bom humor, espero que exista uma boa razão pra isso tudo, senão de que terá válido a pena esses dias intermináveis?...


[Homenagem a George de Oliveira Cardoso]

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

É sempre difícil dizer adeus quando a vontade é de ficar...

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Rotina programada


Eu posso prever o futuro!
Eu sei que soa estranho, algo meio lunático, charlatanista, mas é verídico.
E, antes que pensem em me criticar, devo confessar que não se trata de nenhuma técnica mística, isto apenas se dá pelo fato de que eu sigo, todos os dias, rigorosamente a mesma rotina.
Acordo sempre com a impressão de que me falta algo, tento arrancar de mim a resposta para poder encarar o chuveiro gelado com o sorriso de quem é capaz de responder a si mesmo o que ninguém saberia explicar. Os minutos voam enquanto tento me libertar de travesseiros, edredon, ventilador e do sono que (ironicamente) me toma na hora em que eu devo acordar.
O chuveiro é cruel, porém, amigo. Insiste em esfriar mais ainda uma manhã q nem sempre começa bem humorada, mas esse "balde de água gelada" (sem trocadilhos) me desperta e me faz encarar o resto do tempo que me sobra em casa de forma mais produtiva.
No caminho do trabalho canto as velhas musicas que falam sempre a mesma coisa. Não sei exatamente pra quem canto (ou a troco de quê) mas as canto como faria se houvesse pra quem cantar.
Chego religiosamente atrasado no trabalho, falo com as mesmas pessoas (umas importam, outras nem tanto), e em meio a fotos, textos e vozes te encontro. Sinto paz por conseguir perceber o que me faltava ao acordar, mas te vejo tão longe, quase inacessível, e o pior de tudo: por uma barreira que eu mesmo criei.
Meu dia se arrasta, demora bem mais do que um dia normal, de um cara normal, numa situação normal. "Me entupo" de remédios e um monte de água me faz terminar o dia (físicamente) bem.
Volto pra casa cantando as mesmas musicas que falam as velhas coisas de sempre. Ao chegar me sinto estranho, parece que algo me falta. Não tenho mais coragem pra procurar o q qro, seja na internet, no celular ou no porta malas.
Adormeço com a estranha sensação de ter desejado boa noite a alguém, não sei exatamente pra quem (ou a troco de quê) mas desejei como faria se houvesse pra quem desejar e me preparo pra receber um novo dia onde tudo será exatamente igual...


[homenagem a todos os que acham que seu dia dura mais que o normal...]

Ver e não enxergar...


Verdade seja dita: "não sou lá esses balai' todo". Não sou o filho q meus pais sonharam, o irmao q meu irmao queria, o amigo que talvez meus amigos mereçam, um profissional à altura dos que trabalham comigo, não sou o centro do universo, não tenho as qualidades que admiro nas pessoas e nem espero conseguir mudar essa situação a curto prazo.

Sou o que se pode chamar de uma pessoa comum. Por 'pessoa comum' entende-se: tenho cicatrizes, traumas, medo, orgulho, egoísmo, vícios e defeitos. Porém, apesar de tudo, compenso minhas falhas com boas doses de generosidade e bom humor, com coragem e respeito, enfim, um grande misto de impulsos e consciência que resulta numa disputa equilibrada (às vezes) entre o que sou e o que quero ser.

Observando cada dia comigo aprendi uma das mais importantes lições que levarei até o fim: 'Não julgue as pessoas por suas atitudes. No final das contas não importa o que fazemos, o que importa é quem somos. Nós escolhemos quem somos.' Independente dos desvios que posso dar em minha rota, sei exatamente onde quero chegar. Como um capitão que ruma seu barco sem orientação da bússola mas que mantém o olhar no farol.

Por fim: Um dia eu vou fazer tudo certo mas não hoje...


[homenagem aos que convivem comigo há tempos

e continuam sem me conhecer]