quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Pobre menino rico


São 2:30 da manhã, minha festa acabou.
Depois de me enganar a noite toda a ficha cai seca e rasga o silêncio em minha mente: Estou só.
Entro em casa. Você me faz falta, a noite está absurdamente escura mas não o suficiente pra esconder essa certeza estampada no vazio do meu lado. Meu sorriso tão espontâneo durante toda a noite agora dá lugar a um pálido amarelo que incorporo involuntariamente a cada noite que encerro sem te ter.
Minha festa chega ao fim e me abandona sempre nessa rua sem saída, esperando uma carona de alguém que corre a 200 km/h na direção contrária. Ela insiste em terminar (quase) todos os dias no único lugar onde eu não te encontro: meu quarto.
Olhando para o teto, tendo o breu como véu, penso:
- O amor é uma corrida onde só existe um campeão. Caso houvesse 2º lugar você estaria pra sempre gravada na prata de uma medalha. Não ostentaria no pescoço por orgulho pois toda vez que penso em quem ganha nessa história lembro de quantas vezes perdi.
Minha noite se encerra e me leva consigo para o local onde o esquecimento sana (por ora) o mal de não te ter.
Que bons sonhos embalem meus pensamentos e anjos velem pelo sono de quem tem o que quer mas não o que precisa.


[a quem deixa todas as noites acabarem com o mesmo pensamento em mente]

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Carta de um tetéu

Pleno meio de noite e o telefone toca, o que há muito tempo não é mais normal aqui em casa. Uma voz doce me mata uma saudade que, de tão antiga, quase nos torna estranhos.
Recebi notícias sobre você meu velho, meu avô, mas como a pessoa que fala não é você mesmo, algo não está certo. Numa fração de segundos a voz doce se transforma em pimenta espremida numa ferida. Eu perco o fio da meada na história e começo a recordar um tempo em que tudo era diferente do que estava ouvindo naquele instante...
...você era bem mais novo (quase uns 20 anos), suas mãos não tremiam e sim me seguravam pra a gente jogar bola, sua voz não era fraca mas bastante alegre quando me chamava -"Ô Filipinhoooooo". Me lembro do quanto era dificil poder lhe visitar mas a saudade era tão grande que, mesmo no meio de tanta gente estranha, eu me sentia em casa te ouvindo contar que o tempo não passava sempre de forma divertida e com sorriso nos lábios.
Nunca pude te dizer o quanto te admiro, o quanto quero ser igual a você. Sempre sorrindo, nunca transparecendo problemas ou preocupações, sempre generoso e atencioso com todos (quer mereçam ou não), soube viver no inferno e não se transformar num diabo.
Hoje eu já não sou o mesmo que você carregou nos braços, não acordo cedinho de manhã e fico batendo nas portas chamando - "Tetéuuuuuuu", não jogo mais bola, não sou tão divertido, e, aos poucos a vida me transforma numa pessoa diferente de você.
Você tampouco é o mesmo. A idade caiu severa sobre seus ombros, porém eu acredito que ainda possua o mesmo olhar de menino, um coração que não bate mais tão forte mas que ainda consegue se encher de amor a cada manhã que nasce, seus braços não sustentariam mais aquele moleque que você levava pra tomar refrigerante no bar da frente escondido de mamãe mas tenho a certeza de que seriam capazes de me abraçar com tanta força que esqueceríamos a saudade e a distância, você está dormindo com ajuda de aparelhos mas sei que nos seus sonhos não existem remédios, médicos, cirurgias ou siglas imbecis como UTI e, caso não queira acordar desse sonho, saiba que seu neto aqui será capaz de entender que você preferiu se juntar a tanta gente boa que lhe aguarda do outro lado. Mande lembrança a todos e informe que não vejo a hora de estar junto de meus heróis de infância e que mesmo depois de adulto ainda ocupam um lugar enorme exercendo o papel de construir e cuidar da pessoa que eu sou.
Me despeço da voz meiga ao telefone, a saudade começa novamente e eu penso: 2009 tem sido amargo e Deus parece não corresponder meu bom humor, espero que exista uma boa razão pra isso tudo, senão de que terá válido a pena esses dias intermináveis?...


[Homenagem a George de Oliveira Cardoso]

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

É sempre difícil dizer adeus quando a vontade é de ficar...

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Rotina programada


Eu posso prever o futuro!
Eu sei que soa estranho, algo meio lunático, charlatanista, mas é verídico.
E, antes que pensem em me criticar, devo confessar que não se trata de nenhuma técnica mística, isto apenas se dá pelo fato de que eu sigo, todos os dias, rigorosamente a mesma rotina.
Acordo sempre com a impressão de que me falta algo, tento arrancar de mim a resposta para poder encarar o chuveiro gelado com o sorriso de quem é capaz de responder a si mesmo o que ninguém saberia explicar. Os minutos voam enquanto tento me libertar de travesseiros, edredon, ventilador e do sono que (ironicamente) me toma na hora em que eu devo acordar.
O chuveiro é cruel, porém, amigo. Insiste em esfriar mais ainda uma manhã q nem sempre começa bem humorada, mas esse "balde de água gelada" (sem trocadilhos) me desperta e me faz encarar o resto do tempo que me sobra em casa de forma mais produtiva.
No caminho do trabalho canto as velhas musicas que falam sempre a mesma coisa. Não sei exatamente pra quem canto (ou a troco de quê) mas as canto como faria se houvesse pra quem cantar.
Chego religiosamente atrasado no trabalho, falo com as mesmas pessoas (umas importam, outras nem tanto), e em meio a fotos, textos e vozes te encontro. Sinto paz por conseguir perceber o que me faltava ao acordar, mas te vejo tão longe, quase inacessível, e o pior de tudo: por uma barreira que eu mesmo criei.
Meu dia se arrasta, demora bem mais do que um dia normal, de um cara normal, numa situação normal. "Me entupo" de remédios e um monte de água me faz terminar o dia (físicamente) bem.
Volto pra casa cantando as mesmas musicas que falam as velhas coisas de sempre. Ao chegar me sinto estranho, parece que algo me falta. Não tenho mais coragem pra procurar o q qro, seja na internet, no celular ou no porta malas.
Adormeço com a estranha sensação de ter desejado boa noite a alguém, não sei exatamente pra quem (ou a troco de quê) mas desejei como faria se houvesse pra quem desejar e me preparo pra receber um novo dia onde tudo será exatamente igual...


[homenagem a todos os que acham que seu dia dura mais que o normal...]

Ver e não enxergar...


Verdade seja dita: "não sou lá esses balai' todo". Não sou o filho q meus pais sonharam, o irmao q meu irmao queria, o amigo que talvez meus amigos mereçam, um profissional à altura dos que trabalham comigo, não sou o centro do universo, não tenho as qualidades que admiro nas pessoas e nem espero conseguir mudar essa situação a curto prazo.

Sou o que se pode chamar de uma pessoa comum. Por 'pessoa comum' entende-se: tenho cicatrizes, traumas, medo, orgulho, egoísmo, vícios e defeitos. Porém, apesar de tudo, compenso minhas falhas com boas doses de generosidade e bom humor, com coragem e respeito, enfim, um grande misto de impulsos e consciência que resulta numa disputa equilibrada (às vezes) entre o que sou e o que quero ser.

Observando cada dia comigo aprendi uma das mais importantes lições que levarei até o fim: 'Não julgue as pessoas por suas atitudes. No final das contas não importa o que fazemos, o que importa é quem somos. Nós escolhemos quem somos.' Independente dos desvios que posso dar em minha rota, sei exatamente onde quero chegar. Como um capitão que ruma seu barco sem orientação da bússola mas que mantém o olhar no farol.

Por fim: Um dia eu vou fazer tudo certo mas não hoje...


[homenagem aos que convivem comigo há tempos

e continuam sem me conhecer]