
Era noite, não havia luz tampouco esperança. Na cabeça um monte de coisas e na boca o gosto horrível de tudo o que eu não falei. Andava sozinho mas havia pessoas ao meu redor, flashes de luzes e memórias, rostos e vozes familiares e outras nem tanto. Havia uma ponte que não me levava a lugar nenhum, havia vozes que não me diziam nada, havia olhares que fulminavam mas nenhum que enxergasse. As paredes tinham ouvidos mas meu grito ficou mudo. Havia perguntas, nenhuma resposta. Havia emoções mas não existia razão pra nada. Havia flores nos espinhos mas quem se arriscaria a colhê-las?
Um sino tocava ao longe mas o lugar não tinha igrejas, não existia crenças e as pessoas eram sem fé. Os carros passavam, faróis iluminavam, as placas indicavam estradas perdidas, ruas sem saída, caminhos sem destinos. As pessoas sem rostos viviam pelo simples fato de existir e o preço para isso nem todas podiam pagar. Era a lei do cão num mundo de caos. A bebida não embriagava, o peso nos ombros surtia mais efeito.
Uma grande e arrogante senhora vestida de arrependimento apontava seus dedos sujos de lágrimas, era chamada de Consciência. A moeda corrente era lembranças e o troco se dava em medo, todos guardados num cofre cheio de orgulho.
Eu estava armado mas o alvo era sempre eu mesmo. Olhava pro espelho que refletia tudo o que eu odiava, as coisas que eu não era. Como viver na ilusão?
Tirava facas das minhas costas de aço nobre, cabo entalhado e o meu sobrenome gravado nas lâminas. Atravessavam meu peito e destruíam castelos onde a vida poderia ter sido diferente.
Queria correr mas tinha mãos me prendendo, havia covardia e responsabilidade empilhadas nas prateleiras onde estavam as cordas e a escada. Não gostava de nada que via e pronto para a queda livre perguntei ao carrasco que me acenava num gesto de olá: “Onde estou, como faço pra sair?”
Com voz de desprezo e um pouco de ironia ele respondeu: “Não se pode sair. Bem vindo a si mesmo.”
[...pra quem não sabe dizer adeus às coisas que nem possui]
