quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Adeus

Dei adeus quando os olhos se fecharam pra aquilo que o coração não queria mais ver, foi quando o peito se esvaziou daquilo que carregava, sem nunca ter questionado se o peso valia o esforço.
Dei adeus quando virei a esquina de uma rua que agora ficou pra trás, quando, a cada passo dado, abri uma nova estrada com os mesmos pés cansados de seguir sem direção.
Dei adeus quando, independente do que se ganhava ou se perdia, aceitei o que estava por vir sem remorsos ou falsas esperanças. Quando percebi que precisava apenas do que realmente importava, que meu melhor amigo era sempre eu mesmo e minha melhor conselheira é a experiência que trago na mente.
Dei adeus quando descobri o meu valor e não aceitei ser colocado na mesma balança com algo sem a minha importância.
Dei adeus quando foi melhor deixar o coração machucado do que iludido, quando fui sincero e me apresentei simplesmente como devia ser, despido de arrogância ou falsidades, e o que recebi em troca foram mentiras e acusações.
Dei adeus quando ofereci ouro e em troca recebi ferro, quando vi que insistia em fazer tanto por alguém que "tanto faz".
Dei adeus quando as lembranças passaram a fazer mal, quando entendi o que Lulu quis dizer com "...nada do que foi será, de novo, do jeito que já foi um dia..."
Dei adeus quando os sonhos e as risadas deram lugar ao ódio e rancor, quando tudo que sobrou foram as cobranças de um amor que deveria ser dado de graça.
Dei adeus quando coloquei as cartas na mesa com alguém que trapaceou, que jogou na hora, forma e com o oponente errado.
Dei adeus quando o silêncio na minha boca não cabia mais nela e precisava ocupar os ouvidos de outra pessoa.
Dei adeus quando cansei de ensinar que o amor é uma guerra, sim, mas só é vencida por aqueles que a combatem desarmados...
...e lado a lado.
Adeus.

domingo, 7 de junho de 2015

Irônico

A gente corre, pra cima e pra baixo, pra fazer a vida ter sentido sem sequer perceber que o sentido da vida não está nas coisas que nos fazem correr.
A gente morre a cada dia procurando viver e, no fim da vida descobre, que o que nos torna vivos são as coisas pelas quais se valem a pena morrer.
A gente coleciona sorrisos, abraços, beijos, alianças, na espera de não estar só, porque viver é solitário. Nos juntamos às pessoas que às vezes estão tão sozinhas quanto nós mesmos, como se fosse bastante somar dois perdidos pra se acabar com uma solidão em comum.
A gente compara exemplos, segue receitas, destrincha mapas, na ilusão de encontrar um caminho, sem coragem de imaginar que a estrada não existe, ou se existe, leva a diferentes lugares em diferentes momentos.
Queremos acreditar que o futuro é bom, sem nem saber se existirá um futuro, mas acreditamos pq nem sempre o presente é bom. Acreditar nas coisas nos acalma talvez pq nós não acreditamos em nós mesmos.
A gente se olha no espelho e o que vê é somente um reflexo da ilusão que queremos ver. Nos vemos perfeitos, como se houvessem duas metades iguais, mas pra o bom observador, a perfeição está na assimetria, pois o mundo é assimétrico, a vida tbm e até nós mesmos temos um lado que sempre sai melhor na foto.
É fácil fugir do trabalho, da rotina, de um casamento ruim, do mundo... vc só não foge de vc mesmo. 
É fácil pisar no acelerador, difícil é saber pra onde ele nos levará.
É fácil montar uma casa, difícil é torná-la um lar.
É fácil escrever e reescrever uma história, difícil é virar a página de um livro que não acabou direito pra começar outro livro.
É fácil dar adeus, difícil é seguir em frente quando deixamos tudo pra trás.
É fácil falar sobre amor, difícil é amar, na prática mesmo, quando esquecemos nossas qualidades e relevamos os defeitos dos outros. Tão irônico quanto um gole de cianureto num cálice de cristal, pq nem sempre o amor é o antidoto, às vezes ele é o veneno.

Um cara normal

Já tive medo do escuro, já apertei bem os olhos pra não sentir a dor da luz do dia. 
Já acreditei nas mentiras q eu mesmo me contei e já duvidei de verdades que ouvi de pessoas com lágrimas nos olhos. 
Já tive coisas de sobra, já tive tudo de bom mas também já passei fome, passei frio, já me senti no inferno mesmo vivendo num paraíso.
Já me cerquei de pessoas que me juraram amor eterno e, no outro dia, não eram mais do que estranhos. 
Já menti olhando nos olhos, já apunhalei pelas costas, assim como já dei meu sangue, meu tempo, suor e gratidão a pessoas que nem sempre mereceram esses dois lados da moeda.
Já fui feliz sem fazer qualquer esforço e, no dia seguinte, percebi que nada daquilo existia de verdade, neste momento aprendi que a felicidade pode ser só coisa da nossa cabeça, a tristeza também, dependendo "do lado da cama que acordamos no dia".
Já tive tudo que precisava pra viver dentro de um quarto e outras vezes precisei rodar o mundo pra descobrir o que faltava, ainda não descobri, e às vezes acho que nem me importo mais em buscar.
Já amei de um jeito que deveria ser pecado amar tanto, já senti ódio e matei (mentalmente) a mesma pessoa de diversas formas até entender que a morte mais eficaz (pra mim) e dolorosa (pra ela) foi quando a matei dentro do meu peito.
Já fiz irmãos que há minutos atrás eram apenas desconhecidos, já tive inimigos que amei como família. 
Já me orgulhei de erros que cometi e muitas vezes me senti mal após fazer a coisa certa.
Já lutei pra viver e já escapei de morrer em dias que não faria diferença ter acordado.
Já realizei sonhos que depois se tornaram pesadelos.
Já carreguei o peso do mundo nos ombros e, vá por mim, meu mundo é pesado... 
Hoje sou só eu mesmo. Um cara normal vivendo uma vida real e ainda vejo pessoas que não passaram por tudo que eu passei me criticando, definindo e achando que me entendem sem sequer me conhecerem.