domingo, 15 de novembro de 2009

Apague meu fogo com gasolina




Estavam todos errados.
O último encontro, frio como as noite de maio, colocou um ponto de exclamação no fim de palavras intermináveis.
O chumbo das palavras dele pesaram tanto que ela deve ter usado um guindaste pra conseguir entrar no quarto de cabeça erguida.
Tudo havia sido válido, ao menos para que servisse de lição. O encontro propositalmente ocasional, a esperança mais uma vez inútil de quem quer esperar resultados diferentes fazendo tudo do mesmo jeito, enfim, os mesmos erros de sempre para quem tenta acertar os ponteiros de um relógio que gira ao contrário.
Ela, como de costume, espirrava mentiras que cortavam como navalhas, enquanto ele pensava, já sem nenhum sinal de respeito, em como ela era capaz de mentir para alguém que sequer enganaria a si mesmo, e ainda se chocava com a falta de bom senso dela em não perceber que suas promessas vazias não o convenceriam, afinal, era expert no assunto pois quem mais no mundo teria se iludido tantas vezes por juras que saiam sempre da mesma boca?
Ela, já nem se machucava com tudo aquilo que ele falava. De tanto ouvir grosserias havia criado uma espécie de couraça que a impedia de se machucar. Uma proteção para amortecer as pancadas que escutava para que não atingissem o nível que faz qualquer pessoa desistir de outra.
O lugar onde antes existia amor, hoje está ocupado por outras coisas mais parecidas com indiferença, e, seja lá o que ambos tenham dentro do peito, não parece um coração. Houve álcool, houve beijos, houve dinheiro, mas faltou alguma coisa na mecânica desse encontro, embora os dois saibam exatamente para que cada um serve em relação ao outro.
Sentado na mesa ao lado, eu só posso concluir que o amor abre todos os caminhos, mas a falta dele só nos faz ver o chão da própria cela. Não sei em relação aos anjos mas é a esperança quem dá asas aos homens e esse casal por pouco não está rastejando.




[pra quem sente o gosto doce das últimas gotas de um vinho barato...]

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