quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Carta de um tetéu

Pleno meio de noite e o telefone toca, o que há muito tempo não é mais normal aqui em casa. Uma voz doce me mata uma saudade que, de tão antiga, quase nos torna estranhos.
Recebi notícias sobre você meu velho, meu avô, mas como a pessoa que fala não é você mesmo, algo não está certo. Numa fração de segundos a voz doce se transforma em pimenta espremida numa ferida. Eu perco o fio da meada na história e começo a recordar um tempo em que tudo era diferente do que estava ouvindo naquele instante...
...você era bem mais novo (quase uns 20 anos), suas mãos não tremiam e sim me seguravam pra a gente jogar bola, sua voz não era fraca mas bastante alegre quando me chamava -"Ô Filipinhoooooo". Me lembro do quanto era dificil poder lhe visitar mas a saudade era tão grande que, mesmo no meio de tanta gente estranha, eu me sentia em casa te ouvindo contar que o tempo não passava sempre de forma divertida e com sorriso nos lábios.
Nunca pude te dizer o quanto te admiro, o quanto quero ser igual a você. Sempre sorrindo, nunca transparecendo problemas ou preocupações, sempre generoso e atencioso com todos (quer mereçam ou não), soube viver no inferno e não se transformar num diabo.
Hoje eu já não sou o mesmo que você carregou nos braços, não acordo cedinho de manhã e fico batendo nas portas chamando - "Tetéuuuuuuu", não jogo mais bola, não sou tão divertido, e, aos poucos a vida me transforma numa pessoa diferente de você.
Você tampouco é o mesmo. A idade caiu severa sobre seus ombros, porém eu acredito que ainda possua o mesmo olhar de menino, um coração que não bate mais tão forte mas que ainda consegue se encher de amor a cada manhã que nasce, seus braços não sustentariam mais aquele moleque que você levava pra tomar refrigerante no bar da frente escondido de mamãe mas tenho a certeza de que seriam capazes de me abraçar com tanta força que esqueceríamos a saudade e a distância, você está dormindo com ajuda de aparelhos mas sei que nos seus sonhos não existem remédios, médicos, cirurgias ou siglas imbecis como UTI e, caso não queira acordar desse sonho, saiba que seu neto aqui será capaz de entender que você preferiu se juntar a tanta gente boa que lhe aguarda do outro lado. Mande lembrança a todos e informe que não vejo a hora de estar junto de meus heróis de infância e que mesmo depois de adulto ainda ocupam um lugar enorme exercendo o papel de construir e cuidar da pessoa que eu sou.
Me despeço da voz meiga ao telefone, a saudade começa novamente e eu penso: 2009 tem sido amargo e Deus parece não corresponder meu bom humor, espero que exista uma boa razão pra isso tudo, senão de que terá válido a pena esses dias intermináveis?...


[Homenagem a George de Oliveira Cardoso]

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