E, afinal, o que nós somos?
Uma noite mal dormida que sempre leva a outra noite mal dormida.
Somos um movimento errado de peões num jogo de xadrez entre loucos. O resultado das nossas frustrações, das negativas que a vida nos dá a cada dia, o fruto dos nossos predicados quando o destino nos faz conjugar o verbo errado, e quando o sujeito se sujeita a tudo que lhe é imposto pelo insano prazer de estar vivo. Somos os sonhos que não realizamos como se estes fossem um frasco de Epocler na ressaca da vida. Somos o brilho perdido nos olhos de quem já viveu demais. A chama da vela barata de aniversário que apaga ao menor sopro de uma criança que sonha em ser astronauta ou jogador de futebol. Somos o silêncio que se contrapõe ironicamente aos gritos em nossa cabeça, a dor no joelho (ou nos ombros) que nos acompanha fielmente a cada inverno, os braços que nadam, nadam... e morrem na praia.
Somos um gole de cerveja entre um plano fracassado e outro, a piada que o tempo conta inúmeras vezes, até perder a graça que desde o princípio nunca teve. Somos o cego sem ser guiado, sem cachorro ou mão amiga, querendo atravessar a Floriano Peixoto às 18h. Somos uma música desritmada, tocada num violão desafinado, fora do tom e do compasso, fazendo nossos arrependimentos dançarem na festa da última noite.
Somos uma roleta russa com todas as balas no tambor, somos aquilo que não queremos, a pessoa que não conhecemos e que nem sempre confiamos ou gostamos. Um pedido desesperado de socorro quando não conseguimos gritar, correr ou sequer nos livrar dos braços que nos prendem à cama em uma crise de abstinência. A dor que não cabe no peito, a lágrima que teima em cair no meio da noite, no meio da rua, sem se importar com a plateia de estranhos à sua volta.
Somos o palhaço que, ao fechar as cortinas, depois de fazer todos rirem, retira sua maquiagem e dá lugar ao homem triste que sempre foi.
Pra terminar, o que nós somos? Somos parte da física que ninguém consegue entender e somos, também, uma química mal calculada nos planos de Deus, que apenas nos faz fingir que a vida é bela mesmo quando por dentro já viramos os farelos que o tempo leva.
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