quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Café com pão e ovos


"Tá pronto." - Disse a voz de Vilma batendo na porta do quarto enquanto eu tomava banho ouvindo Breaking Benjamin.
Era manhãzinha, não tão cedo para que eu ainda estivesse em casa e deixasse o trabalho esperando, mas muito antes do horário que eu queria ter acordado naquela quarta-feira nublada, como há tempos os dias têm sido.
Meu dia tinha acabado de nascer, mas a verdade é que já tinha começado independente da minha preguiça e cara amassada por ter passado a noite assistindo filmes ruins. As coisas até então haviam seguido a mesma sequência de todos os dias e tudo acontecia exatamente igual.
O celular despertou com “Good days have come”, passei uns 30 minutos que duraram horas para sair do edredom, coloquei música e entrei no chuveiro gelado e, daí aconteceu o que eu já citei, Vilma bateu à porta avisando que o café estava posto.
Café com pão e ovos.
Tudo da melhor forma que havia como quando eu era criança.
Há alguns (talvez) anos eu não experimentava um café da manhã. Minha úlcera, antes mesmo que os médicos o fizessem, havia me proibido de tomar café, me afastando de um hábito que fez parte de quase toda minha vida e, indo bem lá atrás no tempo, a correria diária, a pressa e a realidade do dia-a-dia não permitia que eu me desse o luxo de fazer uma refeição “de verdade” nesse horário.
Por instantes, nesta manhã de quarta-feira eu senti o prazer de ser simplesmente normal. Senti o gosto do pão assado e também a liberdade de ser uma pessoa comum, de ser um ser humano e não uma muralha como às vezes a vida me faz ser. Senti a graça de não pensar em nada naquele momento. Provei novamente a pureza de estar satisfeito com o que tinha e não me cobrar a oferecer sempre o melhor, e como criança, desejei que todos os dias fossem assim.
Havia um relógio na parede mostrando que eu não sou tão livre mas havia também a tranquilidade de ter encontrado a pessoa que eu já fui e compartilhar um momento comigo mesmo, fazer algo (embora insignificante) para mim pois há tempos eu sinto que ando fugindo de mim mesmo, evitando minha companhia, na verdade não confio em meus pensamentos quando estou só. Comecei a sentir um mal estar, fruto da mistura café x úlcera, mas também o sabor da espontaneidade em cada gole do café forte e meio amargo, havia cadeiras vazias à mesa mas o que importou naquele minuto foi a paz que eu senti por ser somente eu, então pensei:
Talvez a felicidade seja uma mesa com café (mesmo sem estar no ponto certo), pão e ovos. Talvez a esperança seja um hábito só esperando ser seguido ou retomado. Talvez a gente encontre um pouco de paz ao olhar para os próprios pés, e não tentando enxergar horizontes inalcançáveis, quando não cobramos demais de nós mesmos e deixamos de lado, mesmo que só por alguns instantes o mundo nos forçando a dar o máximo, pagar contas, chegar no horário, lembrar de tudo em um dia, esquecer de quase tudo no dia seguinte...
Talvez a vida pudesse ser melhor se eu não tivesse de ser meu pai, meu filho, meu irmão, meu empregado, meu patrão, meu credor, meu fiador, meu único amigo e meu próprio guia. Seria melhor se as pessoas não cobrassem de mim o amor em uma intensidade que eu sou incapaz de dar até pra mim mesmo. Talvez as coisas fossem mais fáceis se eu conseguisse trazer de volta meu brilho no olhar, a sinceridade que sempre esteve presente no meu sorriso, se eu olhasse no espelho e não visse só um cara invisível, se eu chegasse dentro do meu peito e tudo o que eu encontrasse não fosse só uma luz apagada.
Queria minha vida de volta com café, com pão, com ovos, com sorrisos, com música, com simplicidade, com sentido.
Queria conseguir fazer todo o caminho de volta para saber onde foi que eu me perdi de mim mesmo.
Enquanto isso, eu aceito essa amostra de felicidade e fico aqui sem ter nem a quem pedir que todo dia seja assim..
.


(Maybe Tomorrow - Stereophonics)
[Talvez amanhã...]

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