
A chuva continuava caindo fazendo subir o cheiro de asfalto novo.
Era verão mas aquela noite faria tremer o queixo de qualquer um por mais agasalhado que estivesse.
A água que caía refletia no farol do carro e dava um tom meio dramático-psicodélico ao ambiente sombrio de uma antiga parada de caminhões num posto fiscal abandonado.
Eu estava em pé a alguns metros do carro sofrendo os ataques dos pingos gelados que pareciam atravessar meu “casaco de patrão” como chamavam. Apesar de bastante bem-vinda naquela noite escura, eu estava de costas para a luz do carro, como se um pouco de escuridão pudesse me esconder de mim mesmo por instantes.
Ela apareceu e não sei por que sua presença me lembrou os sonhos que esmaguei, as loucuras que disse e cada segundo que permaneci calado, sem que abrisse a boca entendi que veio pra dar adeus, uma forma estranha de se despedir, mas como estranhar algo se nada em nós dois foi normal?
A abracei forte e o frio daquela noite já não importava mais, não era nada comparado com o problema de imaginar como seria minha vida dali pra frente. Minha cabeça fervia com tudo que queria dizer, mas sei que o que quer que eu falasse seria em vão e, apesar de ser contra minha vontade, achei que deixá-la partir seria a melhor coisa para nós dois. Passei anos procurando inutilmente uma forma de tirá-la da minha vida, até que resolvi esperar que ela me esquecesse pois não sabia se seria forte o suficiente pra deixá-la pra trás. Todos nós fugimos de certas perguntas que não sabemos como responder, ou pelo menos gostaríamos de não saber, são frases cheias de “porquês” e “e se...?” no meu caso eu sempre soube que na maioria das vezes eu responderia seu nome e por saber as respostas sempre corri dessas perguntas como o diabo corre da cruz, mas agora estavam todas na minha mente, organizadas pela ordem que preencheria os espaços das minhas dúvidas.
Já havia um tempão que estávamos lá em pé, parados, abraçados, na verdade o mundo parou um momento para que pudéssemos fazer alguma coisa da forma correta em oposição a todos os tempos de guerra que travamos. A chuva não deu trégua e era o único som que ouvíamos além das batidas do coração, além disso, os pingos misturaram-se com as lágrimas que eu enxugava com os dedos cheios de anéis e caiam batizando o asfalto recém-colocado e demarcando aquele pedaço de chão como nosso lugar de despedida.
E assim foi, sem beijos, sem palavras, com apenas um aceno de cabeça a vi seguir na BR e desaparecer na escuridão daquela estrada noturna, a chuva limparia seu rastro para não me deixar chances de segui-la. Olhei em volta, não havia ninguém talvez por quilômetros, ninguém seria testemunha da minha covardia, ninguém para me apontar o pecado que cometi comigo mesmo, ninguém me julgaria por ser louco o suficiente pra tirar de mim a chance de uma vida feliz. O pior ladrão é aquele que rouba de si mesmo e essa é uma idéia com a qual eu tenho que aprender a conviver.
Entrei no carro ciente de que minha felicidade seria como um refém abandonado no cativeiro quando ninguém mais tem forças para procurá-lo, e ao olhar pro painel percebi um bilhete que ela havia deixado:
“ O problema de querer está no medo de perder...”
Era apenas um pedaço de papel que a água da chuva se encarregou de destruir, porém são palavras com as quais eu jamais conseguirei conviver e estão presente em tudo que eu faço.
[deixado pra aqueles que são escravos do próprio destino que construíram...]
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